segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Sabe aquele?


Suspirou. E ele tinha uma mania crônica de suspirar.

Seu jeito de falar carregava a serenidade e a lassitude de um homem de setenta anos. Suas palavras, muitas vezes balbuciadas, caminhavam com uniforme vagareza; suas frases saíam sempre vagas e até mesmo entediantes. Eram frases vacilantes. E o jeito de falar era de quem parecia medir milimetricamente o que dizer. Parecia pensar com cuidado, em cada pausa que fazia, qual seria a palavra seguinte e, quando não a encontrava, suspirava. Na maioria das vezes, mesmo sem saber como dizer, sabia o que seria dito em seguida se ele não parasse. Justamente por isso, parava. Inspirava o ar profundamente e soltava, como que aliviado. Mas não era propriamente um suspiro de alívio. Parecia cansado. Essa pausa para o suspiro normalmente dava abertura para que os outros dissessem algo ou tentassem completar seu raciocínio. E era assim toda vez que eles se encontravam e ficavam conversando por algumas horas. Acontecia também de não se ouvir nada; ficavam então em silêncio por um curtíssimo espaço de tempo. Entreolhavam-se e sorriam como se estivessem sem graça, mas não estavam. Tinham plena consciência do que acabara de acontecer.

Às vezes ele estava dissertando sobre alguma coisa diretamente relacionada com o que sentia. E numa das breves pausas que fazia entre as palavras, suspirava. Talvez quisesse ganhar tempo para conseguir prosseguir sem ter que dizer aquilo que sentia, algo que buscava desesperadamente um modo de sair. Ele aprisionava seus anseios e sentimentos mais profundos em um suspiro. E fazia isso várias vezes.

Com o tempo, apenas um suspiro não foi mais capaz de comportar tudo que durante anos ele tentara preservar inviolável. O que realmente sentia ou queria dizer estava protegido pelo que ele pensava ser uma fortaleza indevassável, mas, na verdade, a fragilidade de tal “fortaleza” era equiparável a de um frasco de porcelana. Qualquer movimento desajeitado -e ele fazia muitos movimentos desajeitados- poderia provocar um esbarrão no frasco e quebrar tudo.

Ele sabia que era preciso falar.

Quando saem, os sentimentos assumem outra forma: a forma que o outro vê e percebe. Uma vez fora de si, a pessoa passa então a ter a possibilidade de ver e perceber como o outro vê e percebe aquilo que é ele mesmo. Por isso escrever tem o poder que tem, porque logo após as palavras escritas, qualquer pessoa que lê, ainda que seja quem as escreveu, lê na condição de uma terceira pessoa e consegue olhar de fora para si mesmo. Ela consegue ver como os outros estão vendo o que ela diz sentir. O problema é que ele não tinha muito jeito com as palavras escritas, nunca teve. Talvez por isso não chegasse nem perto de sentir plenitude no que escrevia e achava melhor falar, ainda que com inúmeras pausas.

Não precisava esconder tanto, pelo menos não de todo mundo. Não dela. Muito menos de si. Ela talvez fosse a pessoa que melhor entendesse o que havia por traz daquele suspiro. E ele... ele talvez não tivesse conhecimento do que aprisionava dentro de si. De nenhum outro modo aquilo que ele reprimia fora externado. Essa era a questão.

A não mais existência daquele suspiro representaria a queda de um muro que separava a realidade do mundo da sua realidade, e também aumentaria sua percepção de si mesmo. E foi numa tarde dessas de verão que ele disse:

– Sabe aquele suspiro?

Ela acenou que sim com a cabeça.

– Então, estou disposto a não tê-lo mais com você.

6 comentários:

Anônimo disse...

Eu não ousaria comentar nada sobre esse texto sem estar na sua presença.

Sexta-feira esteja onde você deve estar.

Anônimo disse...

Devorei cada palavra! O sentimento aprisionado junto do medo, são as causas colossais da insignificância do homem... O final onde ele com poucas palavras consegue exprimir o sentimento, foi um desfecho feliz e sadio comparado com a realidade que sempre é feito de dor e tristeza!

Mas em si e para si o texto ficou maravilhoso!

Tânia Tirone disse...

Eu tenho dificuldade em me expressar com palavras, escritas e faladas. Raramente eu consigo passar oq realmente sinto. É desesperador! Pq a pessoa q ouve/lê pode interpretar de um jeito q não é o certo.
Mas eu acho q existem algumas situações em q o suspiro é a melhor atitude.

Anônimo disse...

seLiótico!!!

vc é D+, véi!

bjo, bjo. bjo

:D

Tânia Tirone disse...

vou falar com mãe, modi nóis fazê suspiro! :)

Anônimo disse...

Segue na URL uma deliciosa receita de suspiro! Já foi testada e aprovada junto de uma torta gelada de morango!